Geralmente, quando escrevo um roteiro para mim mesmo, ele é um texto corrido, sem muita definição de quadros ou número de páginas. Acho que isso é legal porque na etapa do desenho eu posso gastar mais ou menos quadros para mostrar alguma situação ou clima específicos. Sei lá, entrei nessa brisa na época da produção do Colhedor de Raios. Nele o personagem passava por um lance interno, sofrido e tal, mas sem balão ou texto nenhum. Então no roteiro não tinha nem como prever como ou quantos quadros demoraria para passar esse clima.

Mas as primeiras páginas de roteiro do Sonhonauta foi diferente: eu quis do nada colocar os quadros e páginas já definidas no roteiro mesmo. Não sei porquê, se queria me sentir mais profissional/ menos amador, já que nas gigantes dos quadrinhos americanos o roteiro tem TUDO definido. (aliás, já viram um roteiro do Alan Moore? INSANO.)

Esse aqui é um trecho do roteiro que eu achei no meio da bagunça. Atentem-se nos terríveis erros de português rs:

página 1
quadro 1- camera virada para o céu. Está nublado e chovendo.
quadro 2- texto de abertura: Junk Box (pensar em um nome melhor)
quadro 3- Close em  Mickey Mouse (ou um similar) no fundo amarelo, sorrindo. Nota-se um pingo de água perto.
quadro 4- close para uma mulher bonita, loira, encharcada na chuva. Ela está em prantos, suplicando:
balão: -por favor… não faz isso…
página 2
quadro 1- A imagem do Mickey mouse se revela. É um relógio de pulso, onde o personagem aponta para os números para indicar a hora. Está em uma mão que segura algo prateado, não revelado ainda, encharcado pela chuva.
quadro 2- a camera se distanciou. A mão segura uma enorme chave inglesa, e a figura da mulher loira está logo a frente.
loira: -por favor… você está louco! vamos conversar vai…
quadro 3- a mão dispara com a chave inglesa.
quadro 4- vemos a silhueta de um homem indo bater na mulher com a chave.
quadro 5- instante onde a chave começa a entrar esmagando o cranio da mulher. Vemos o seu lindo rosto, em lágrimas, e olhando para o assassino. Trabalhar a impressão de que a cena foi congelada.
recordatário: -Diga-me os seus desejos, tuas esperanças e seus sonhos, que desenharei sua alma, donzela.
página 3
quadro 1- close nos olhos abrindo, visão lateral, com uma luz matinal.
quadro 2- Close lateral no rosto de Mendel, nosso personagem principal. Ele está calado, olhando pra cima, ainda deitado e com a cabeça no travesseiro.
Recordatário: -Nossa, foi só um sonho.
quadro 3- ele está no banheiro, lavando o rosto.
quadro 4- Mendel se olha no espelho. Homem, cerca de 30 anos, com um aspecto meio de acabado, olheiras, barba mal feita.
Recordatário: -Parecia tão real. Isso quer dizer alguma coisa.
quadro 5- Ele toma uns remédios. O armarinho detrás do espelho do banheiro está aberto.. Notamos que há vários remédios tarja preta, aspirinas, antidepressivos.
Quadro 6- Cena dele acendendo o fogão, com uma cafeteira italiana velha.
recordatrio: -Sempre tive uma relação intensa com os sonhos, e eles já me trouxeram estranhas mensagens.

 

Claro que, no final, ficou uma coisa meio nem pra lá nem pra cá. Teve horas que o roteiro me ajudou muito a visualizar uma sequência, mas teve outras que senti que tinha que ignorá-lo e seguir o ritmo do momento. Esses aqui são as primeiras páginas que desenhei com lápis:

 

Daí começou já de cara a primeira treta:  a cena em que o crânio da donzela é esmagado pela chave inglesa e o sangue explode para todos os lados. Demorei algumas tentativas até chegar numa que me agradasse visualmente. A princípio tinha pensado que o sangue poderia ser uma coisa psicodélica/pesadelística, com olhos e boca por todos os lados, aquelas texturas que te dão aflição, sabe?

Essas são todas as minhas tentativas:

 

Mas aí eu não fiquei satisfeito com o resultado, (mesmo dando um baita trabalho terminar essa página) e então voltei para a ideia de ser sangue mesmo, trabalhei com arte-final a lápis para depois inverter as cores, e emendei com o título da história.

 

 

Essa próxima sequência é de quando ele acorda assustado, lava o rosto, toma remédio e faz café. No início eu visualizava o Sonhonauta como uma história mais rápida, mais acelerada, de menos de 100 páginas (mesmo sem ter o final escrito). A narrativa seria mais corridona mesmo, mas enquanto desenhava, senti que precisava trabalhar melhor as cenas, os detalhes, o tempo que ele passa pensando. Então grande parte desses quadros eu acabei descartando e começando de novo.

 

 

No decorrer da produção desse primeiro capítulo, acabei adicionando algumas páginas, mudando textos, falei um pouco sobre o vilão, um pouco mais sobre a donzela. Legal que nessa história me permito voltar e adicionar, deletar, refazer quadros para melhorar a coisa toda. (além de na página que a chave inglesa voa, tive que espelhar a página por que estava na mão errada rs.)

Bem, o resultado é esse:

 

 

Caderninho novo estreando com o Sonhonauta #sonhonauta #lapis #sketch #sketchbook

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O sonhonauta em produção #nanquim #process #b&w #sonhonauta

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